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Em obras, mas sagrada

15 de julho de 2026 3 min perimenopausaidentidadereconstrução

Tem um silêncio novo que começa a se instalar no corpo lá pelos quarenta e poucos. Não é o silêncio de quem está triste — é o de quem, pela primeira vez em muito tempo, parou de correr e pensou: será que eu tô cansada ou só tô virando outra mulher?

A perimenopausa não bate na porta. Não se apresenta, não manda recado. Ela se instala de mansinho: muda o ritmo, o humor, o sono, a paciência, a libido, o endereço emocional. Um dia você percebe que está morando numa casa cuja planta ninguém te mostrou.

Comigo foi assim. Eu esperava tristeza, e não era tristeza. Era recalibragem de sistema — o corpo baixando o volume de fora pra eu conseguir ouvir o de dentro.

O que ninguém te conta

Te avisaram que ia parar de menstruar. Não te contaram o resto:

  • a névoa mental é real, e não é burrice;
  • a irritação, quase sempre, é um “não” antigo que você nunca teve licença de dizer;
  • o cansaço pode ser sabedoria pedindo espaço;
  • e, no meio de tudo isso, aparece uma mulher mais verdadeira do que qualquer versão anterior de você.
A cada camada que cai, nasce algo mais nu, mais firme, mais seu.

É por isso que eu chamo essa fase de obra. Toda obra tem tapume, parede aberta e aquele momento feio em que parece que estragaram tudo. Depois vem o acabamento — e a casa fica finalmente do seu tamanho, não do tamanho que servia pra você.

É desconfortável porque é honesto. Pela primeira vez em muito tempo, você não tem energia de sobra pra sustentar o que é de mentira. Sobra só pro que é verdadeiro — e isso, por mais que doa, é uma limpeza.

Da bagunça pra clareza

O que me ajudou não foi resistir à reforma. Foi participar dela de olho aberto:

  • nomear o que estava acontecendo, em vez de achar que eu estava pirando;
  • procurar quem entende de corpo — médica, ginecologista — sem vergonha nenhuma;
  • baixar a exigência sobre mim mesma no período em que tudo pesa mais;
  • escrever uma frase por dia sobre como eu tinha acordado.

Reconhecer quem você está virando é o primeiro trabalho de posicionamento que existe. Antes de decidir como aparecer no mundo — como falar, como se mostrar, como ocupar o seu lugar —, é preciso saber quem é essa mulher que ficou de pé quando a poeira baixou.

Você não está em ruínas. Você está em obras — e continua sagrada enquanto a reforma acontece. Aliás, é bem no meio da bagunça que a parte sagrada aparece.

Se você leu até aqui e sentiu um “é isso” subir pela garganta, eu escrevi um manual inteiro sobre essa travessia: Você Não Está Louca… Só Está na Perimenopausa. São 46 páginas francas e bem-humoradas sobre corpo, hormônios, névoa mental e libido — e sobre a mulher que nasce no meio disso. É gratuito, e o link está aqui embaixo.

escrito por Regiele Holleben · Prudentópolis · 15 de julho de 2026

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